
Encontrar maneiras de se estabelecer a cadeia produtiva de
terras-raras (TR) no Brasil foi o objetivo principal do 1º Seminário
Brasileiro de Terras-Raras, promovido pelo Centro de Tecnologia Mineral
(Cetem) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME), em dezembro passado, no Rio de
Janeiro. "Nosso objetivo neste seminário vai além das terras-raras; é
uma oportunidade de fazer com que o País tenha um futuro brilhante",
afirma Osvaldo Antonio Serra, professor da Universidade de São Paulo
(USP) e um dos organizadores do evento.
Francisco Eduardo de Vries Lapido-Loureiro, pesquisador emérito do
Cetem, abriu sua palestra citando um pesquisador francês que afirmou que
as terras-raras serão, para o século 21, o equivalente ao que o
petróleo foi para século 20 e o que o carvão foi para século 19. "Uma
nova revolução industrial", comparou.
Lapido-Loureiro apresentou uma série de dados, em que o Brasil aparece
como produtor de 650 toneladas por ano, supostamente com reservas de
18.000t e reservas base de 89.000t, enquanto a China, principal provedor
de TR, atualmente produz 120.000t, tem reservas de 27 milhões de
toneladas (Mt) e reservas base de 89 Mt, ou seja, produz 97% do total
mundial (124.000 toneladas). "A China se tornou a Arábia Saudita das
terras-raras. Ou ainda mais, pois a Arábia Saudita tem concorrentes no
mercado do petróleo e a China, não", acrescenta Iran Ferreira, da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Não é novidade que o Brasil queira voltar a ser um grande produtor de
TR, conjunto de 17 elementos químicos utilizados para aplicação em alta
tecnologia - presentes em minérios como a monazita, a bastnaesita e a
xenotima (maiores fontes de TR). Muito antes da existência de ímãs que
transformam energia elétrica em mecânica, smartphones, tablets, fibras
óticas e trens-balas (produtos cuja elaboração depende das
terras-raras), o País já explorava essa seara. Chegou a ser o principal
produtor delas e começou sua exploração ainda no século 19.
Contudo, foi durante a segunda metade do século 20 que a produção foi
intensificada, sendo realizada pela Orquima (1946 a 1962), pela Comissão
Brasileira de Tecnologia Nuclear - CBTN (1962-1966), pela APM/CNEN
(1966-1972), pela Nuclebrás (1972/1992), que criou em 1976 a subsidiária
Nuclemon, até chegar finalmente ao comando da Indústrias Nucleares do
Brasil (INB), conforme detalhou Adriano Maciel Tavares, da INB, em seu
histórico da produção de TR no País.
"Trabalhar com terras-raras sempre foi complicado, mas sempre houve
pesquisa", destaca Tavares, lembrando fatos históricos como a geração de
carbonato de neodímio pela Nuclemon em 1986, que permitiu que a Unicamp
construísse o primeiro protótipo de laser. No entanto, Osvaldo Serra,
em um balanço das palestras, alertou para a necessidade de criar-se um
órgão que "vista a camisa" exclusivamente para as TR. "O grande problema
é que a INB não tem como principal objetivo a produção de terras-raras.
Apesar de seu esforço, não houve continuidade da Orquima e começamos a
perder ou pelo menos estagnar nossa tecnologia", opina.
A grande diferença agora é que o Brasil não deseja
apenas exportar esses elementos, mas também participar de toda a cadeia
produtiva. "Se este seminário tivesse acontecido dez ou vinte anos
atrás, talvez a preocupação fosse exportar os concentrados crus. Hoje,
há a intenção de tentar viabilizar a cadeia produtiva não só das
terras-raras, mas também de outros minérios. É um avanço", opina
Fernando Lins, diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia
Mineral do MME e relator do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI)
sobre minerais estratégicos, que envolveu o Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação (MCTI) e o MME.
Lins apresentou algumas recomendações do GTI para as terras-raras, tais
como a criação de uma coordenação para o desenvolvimento do segmento; um
estudo prospectivo com a participação da academia, de institutos de
pesquisa e do setor empresarial; outro levantamento geológico; um
programa de PDI; e a integração em projetos de inovação e articulações
público-privadas.
Catalão (GO), Araxá (MG), Pitinga (AM) e Poços de Caldas (MG) são
depósitos de terras-raras, que apresentam mais de 30 ocorrências no
País, como na Região de São João Del Rei (MG). Foi na Bahia, em
Cumuruxatiba, onde começou a exploração das areias monazíticas, em 1886.
Estratégias do MCTI
Elzivir Guerra, coordenador de recursos minerais
do MCTI, afirma que o ministro Aloizio Mercadante lançará, nos próximos
dias, dentro do Conselho de Ciência e Tecnologia, a estratégia nacional
de C,T&I e que ela levará em conta a produção das terras-raras. "Um
dos desafios da estratégia é estabelecer e consolidar a liderança do
Brasil na economia do conhecimento de recursos naturais. Dentro desse
desafio, está a retomada e a implantação da cadeia produtiva de
terras-raras, elencadas como prioridade". A estratégia será para os
próximos quatro anos, com plano de ações que envolvem um plano de PDI
para minerais estratégicos. Guerra anunciou também a possibilidade da
criação de uma rede de centros de inovação para tecnologias de produção e
uso de terras-raras.
"O que a China fez nos anos 90 nós teremos que fazer agora", resumiu
Lucy Chemale, do CPRM - Serviço Geológico do Brasil. Ela revela que o
órgão pretende organizar visitas aos principais depósitos de
terras-raras do mundo e propor o intercâmbio a partir de equipes
multidiscilplinares.
Christian Hocquard, representante do Bureau de Recherches Géologiques et
Minières, o serviço geológico da França, relatou a produção e uso de
terras-raras em seu país e chamou a atenção para o fato de que a mistura
de produção (ou a não-padronização dela) ao redor do mundo contribuiu
para um desequilíbrio entre a produção de terras-raras pesadas
(insuficientes frente à demanda) e a de terras-raras leves (excedentes).
E apresentou algumas razões limitadoras da produção em geral, como a
dificuldade de separação e purificação dos elementos, a radioatividade
dos resíduos e os diferentes preços de comercialização dos 17 elementos.
Entre as soluções a curto e médio prazos, ele sugere a estocagem
estratégica e os chamados "3 R" (reduzir, reutilizar e reciclar).
Como resultado prático do encontro, os organizadores pretendem criar um
documento com síntese das conclusões e recomendações do seminário, que
servirá de referência para a futura política de governo do setor mineral
brasileiro e será encaminhado ao MME.
Fonte: Vermelho Portal